Mulher de Ironman

Mulher de Ironman

Há alguns anos, na minha casa, tem duas bicicletas no meio da sala. Elas vieram de mansinho, sem grande alarde e sem que eu me desse conta. Primeiro, veio aquela dos treinos da estrada, comprada com orgulho e que, obviamente, jamais poderia ser guardada na garagem. Depois, veio a ‘contra-relógio’, igualmente amada e importante.

Não fui eu quem as comprei. Ambas são dele: um triatleta convicto com quem divido a vida, os cuidados com os filhos, as angústias e as alegrias. E, além do trabalho de engenheiro – que não é pouco – ele tem o firme propósito de participar das provas de Ironman. Para minha sorte, conseguimos negociar o seguinte: um ano sim, um ano não, ele se inscreve. Afinal, acordar todo sábado e todo domingo às cinco da manhã e ir para a estrada treinar, não é para qualquer um. Isso sem falar nos treinos durante a semana… Mas é bom que se diga, nos anos de “descanso” têm as provas mais curtas, as corridas de rua, os long distances, etc.

O fato é que a mudança começa devagar, você nem percebe. Primeiro vêm os amigos da despretensiosa corridinha de final de tarde, depois surge o desafio de uma maratona (a primeira, aliás, a gente nunca esquece) e aos pouquinhos começam os treinos de “bike” e a natação. Quando a gente percebe, já está no meio desse mundo. E, ele, normalmente quer mais.

É incrível como até pouco tempo atrás eu nem conhecia o esforço dos triatletas. Meu marido não é exceção. Em sua grande maioria, eles também trabalham, têm filhos, têm problemas e são gente como a gente. Mas a rotina… Ninguém ousa matar treino, por exemplo, porque está com sono. Não. Jamais. Isso não acontece. Faltar um long distance para ir a um casamento então… Nem pensar! E não importa se quem está casando é um sócio ou algum grande amigo do casal. O mundo do Iron tem regras. Siga-as. Determinação é o que não falta.

Aliás, como se diz durante as competições: se você tem disciplina para aguentar os treinos, o resto será fácil. A prova em si nada mais é do que a finalização de um longo processo de esforço, dedicação e amor ao esporte.

Ser mulher de Ironman exige, sem dúvida, alguma dose de renúncia e muita compreensão com o desafio (dele). Mas, quem disse que é ruim? Ver aquele número grande de pessoas concluindo uma prova tão difícil traz muito orgulho e satisfação. Impossível não se sensibilizar.

E, se você puder assistir, já de noite, a emoção daqueles que, machucados, cruzam a linha, sentir-se-á parte disso tudo. Terá (como eu) um enorme respeito.
Será até capaz de torcer para que as bicicletas nunca deixem de morar na sua sala.

— Rogéria Dotti

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